O portão do galpão se abre. Alan fica surpreso por ainda funcionar. Ele passou muito tempo se questionando sobre o que teria ali. Hoje, ele finalmente teria uma resposta. Ao conseguir levantar o portão, as luzes se acenderam automaticamente. Alan conseguiu vislumbrar o que há muito tempo fora esquecido. Ele foi imediatamente envolvido por um sentimento de nostalgia, como se as lembranças do seu avô o abraçassem. Embora empoeiradas, algumas caixas de produtos lhe trouxeram memórias da infância, outras caixas ele teria que abrir para saber o que continham, mas o que mais chamou a sua atenção foi um pano marrom que estava guardando algo embaixo; aquilo era o que mais ocupava espaço ali — devia ser também a coisa mais importante. Ao remover o pano, aos poucos ele percebeu que havia uma máquina estranha, algo que ele nunca havia visto antes. A máquina o encarou como se estivesse o aguardando a muito tempo, esperando para ser trazida de volta à vida.
O veículo embora desgastado com o tempo, ainda tinha um brilho especial. A sua cor laranja metálica ainda estava viva em seu corpo; um laranja que se destacava como um jardim ensolarado no meio de uma cidade de metal. Esse era um veículo um tanto diferente de qualquer outro que ele havia visto antes. Esse veículo não tinha propulsores e nem computador de bordo. Ele tinha coisas redondas na parte de baixo, na verdade ele era cheio de coisas redondas com buracos; até dentro dele, onde alguém se sentaria, havia uma manivela muito grande que atrapalhava a visão da janela frontal. Tudo isso era estranho e curioso, ou como diria o seu avó, muito interessante.
Movido pela curiosidade e pelo desejo de honrar a memória de seu avô, Alan decidiu que restauraria o carro. Seria um processo de aprendizado interessante. Alan jamais havia consertado nada em sua vida, então essa ideia o animou como uma bateria na tomada. A garagem tornou-se o seu novo refúgio. Passou horas organizando as caixas com peças estranhas, juntou informações sobre o veículo, baixou arquivos e instruções. Conseguiu escanear os problemas e começou a trocar as peças; as que ele não tinha, ele improvisava a partir de sucatas, dessas das quais ele teve que visitar lugares bem estranhos e provavelmente insalubres. A cada parafuso apertado e peça ajustada, ele sentia uma conexão mais profunda com o seu avô. Lembrando-se das histórias que o velho contava sobre a juventude e as aventuras na estrada, como era a sua vida antes de todos esses prédios altos e carros voadores. A restauração do carro não era apenas um projeto mecânico, mas também uma jornada emocional, um caminho para redescobrir suas raízes e encontrar um propósito em meio ao caos do mundo moderno.
Alan se empolgava com a ideia de ser dono de um veículo terrestre. Conseguir se locomover e explorar lugares vazios e desertos, abaixo e entre os prédios. Ter uma forma de locomoção retrô — de certa forma até primitiva. Algo praticamente extinto por causa da modernidade; nem os povos mais reclusos andavam de carros terrestres. Se por um lado, conseguir andar de carro seria algo diferente e exclusivo, por outro lado, fazê-lo funcionar também necessitava de conhecimentos há muito esquecidos. Alan logo entenderia isso.
Ao terminar o projeto do carro, seguindo instruções e usando as peças deixadas pelo seu avô, Alan logo conseguiu dar vida à máquina, fazendo o seu motor rugir como um dragão e seu corpo tremer como uma besta raivosa. Finalmente após muitas semanas de trabalho, Alan conseguiu testar o carro, mas ele não contava que a sua experiência ao conseguir finalmente pilotar o veículo, seria tão estranha. Para quem está acostumado a se locomover em veículos tão rápidos e tão fluidos que parecem estar imóveis o tempo todo — como água no aquário ou uma nuvem no céu. Um carro andando na terra, é como se o que restava da natureza lutasse contra ele, e pela primeira vez na vida, Alan sentiu que estava totalmente no controle de algo.
Após alguns testes em ruas antigas e em terras vazias, Alan percebeu que o terreno em que ele dirigia era como um campo de batalha, ou uma dança que ditava o ritmo para o seu veículo. Logo ele entendeu que precisava negociar com a natureza e entrar na dança, não era qualquer lugar onde ele poderia voar com as rodas no chão. Além disso, rapidamente ele também percebeu que sem combustível, ele também não poderia sequer andar. O que alimentava e fazia a sua máquina se mover estava acabando. Esse tipo de combustível antigo não era de fácil acesso, muito menos barato. Alan precisaria de um novo plano.
Não seria possível manter o carro como ele deveria ser, mas não tinha porque se desfazer dele. O carro merecia uma vida nova, assim como Alan. Um novo plano surgiu: Alan modernizaria o carro, pelo menos, um pouco mais. Como o seu avô costumava dizer, se a gente não pode consertar, a gente faz uma "gambiarra", esse era um antigo termo popular para adaptação. Foram necessários mais alguns meses de trabalho, mas ele conseguiu modificar o carro como um artista editando a sua obra. Alan conseguiu fazer com que o veículo pudesse usar tecnologia para funcionar, fora isso, ele manteve quase tudo do jeito que deveria ser, como uma obra restaurada. Desse dia em diante, Alan sempre acordava mais cedo para fazer suas viagens ao trabalho com o seu carro, ouvindo músicas e finalmente se sentindo um pouco mais livre.

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