Queria ter dito antes
Reh Ferreira
Fala velhão,
Feliz Aniversário!!!
Deixa eu te falar, finalmente consertei aquele armário antigo que tu sempre me pedia para arrumar. Antes, eu não entendia o motivo do senhor insistir tanto nisso. Mas, depois de pronto, não é que ele ainda tem um charme?!
Acho que consegui entender o porquê.
Tô virando um homem das ferramentas afinal de contas, né pai?
Jeito esquisito de começar uma carta.
Já faz muitos anos que não nos falamos… eu sei, é culpa minha. Me perdoa por não te escrever? A vida anda corrida…
Te confessar que só conseguir tomar coragem agora.
Nunca soube muito bem como conversar com o senhor. A gente teve os nossos altos e baixos. A nossa convivência não foi das mais fáceis naquela época.
Sempre fomos distantes.
Gostos diferentes, ideias que não se pareciam…
Antes, eu te culpava pela distância. Agora, me lembro de cada tentativa do senhor que eu recusei.
Demorei muito para perceber que a culpa era minha também. Ou até mais…
Queria ter percebido antes.
De qualquer forma, não estou escrevendo para falar do passado. Quero te falar das novidades.
São muitas!
Semana passada, a Carla pegou alguns dias de férias, e ai aproveitamos para viajar com as crianças.
Foi irado! As crianças se divertiram e bagunçaram a beça.
Aé… o Dudu já está com 8 anos e a Gabi com 13. Eles cresceram em um piscar de olhos. O tempo parece que voa quando tem tanta coisa acontecendo, né?! Acho que isso explica bastante sobre a nossa percepção da vida.
E a viagem foi muito divertida! Fomos para a praia e alugamos uma casa. Tivemos um final de semana longe das telas e dos video-games. Curtimos a natureza, visitamos zoológicos, jogamos jogos de tabuleiro, almoçamos e jantamos juntos.
Sinto que foi uma experiência necessária. Sempre que posso, faço de tudo por eles e tento dar o meu melhor.
E realmente, isso não é tão fácil de fazer quanto eu imaginava.
Me perdoa.
De quebra, a viagem ajudou bastante a aliviar o estresse do trabalho também. São esses momentos em família que me fazem perceber que tudo vale a pena. Tô vendo os meus filhos crescendo tão próximos e se apoiando em tudo o que fazem que isso me faz chorar sempre que eu penso.
Comigo foi bem diferente.
É… pode me zoar, seu velho. É irônico mesmo, acabei virando um chorão.
Mudando um pouco de assunto: consegui aquele trabalho que tanto queria. Fiz o que o senhor me disse várias vezes e terminei aquele curso. Sei que enrolei bastante, mas deu tudo certo. Obrigado por ter insistido e martelado esse conselho na minha cabeça. Foi muito importante.
Queria ter seguido ele antes que você fosse embora. Seria legal que o senhor soubesse das minhas conquistas sem ser por carta. Queria que visse de perto tudo de bom que aconteceu. Queria te mostrar tudo isso e te deixar orgulhoso.
Enfim… tenho bastante coisa para pôr em dia. Então vamos lá!
Demorou um pouco, foi difícil, mas consegui largar a bebida. Motivo de comemoração, aeeee! Pode abrir a champagne… brincadeira ;)
A gente já brigou muito por causa da minha bebedeira… é… tu chorou muito por isso também. Mas relaxa, de um chorão para o outro, agora está tudo bem.
Tô seguindo os teus passos velhão.
E eu não teria conseguido sem a ajuda da Carla. Ela me fez perceber o quanto que eu estava jogando a minha vida fora com aquele vício. Antes, achava que aquela era a única forma de lidar com tudo do qual eu queria fugir… até perceber o quanto aquilo apenas me afundava cada vez mais.
Queria que o senhor tivesse conhecido a Carla. Ela é incrível. Nem sei o que eu seria sem ela.
Então, vocês vão ter que dividir os créditos, viu.
Aliás, não dirijo e bebo mais. Pode ficar tranquilo, os teus netos sempre voltam para casa seguros.
Por falar nisso, queria que a mãe estivesse com a gente nas viagens também. Ela normalmente passa mais tempo com os meus irmãos e diz que é porque eles moram mais perto. Sinto muito a falta dela, mas fazer o que…
E pode deixar, sempre dou um jeito de visitá-la quando tenho uma brecha de tempo.
É velhão, demorou, mas eu tô escutando os teus conselhos.
Falando nisso, estou cumprindo com as minhas promessas também, viu? Sempre culpei o senhor por nunca me prometer nada. Antes, eu não conseguia entender o tanto que isso era difícil pra ti.
Agora eu sei.
Tu só prometia o que podia cumprir. Suas palavras nunca eram vazias.
Aqui em casa a criançada sabe o quanto que eu prezo por cumprir uma promessa também. Os danados vivem me pedindo para prometer qualquer coisinha, só porque eles sabem que ai não tem jeito, eu vou ter que cumprir. Essa tua lição me botou numa enrascada, viu…
Noutro dia, o Dudu encheu o saco para que a gente fosse no circo que estava tendo aqui na cidade. Não sei de onde ele tirou essa vontade de ir no circo. Eu mesmo nunca tinha ido. Então achei que poderia ser legal, mas estava ocupado consertando o armário aqui em casa.
Você acredita que o garoto resolveu me chantagear?
Ele falou que, se demorasse, a gente não ia conseguir ir no circo. Então bolou essa ideia de me ajudar em troca da gente ir no circo.
Aceitei a proposta dele e prometi que a família toda iria se desse tempo. Então era bom a gente trabalhar rápido.
Só que ele não tinha muito como me ajudar não, então eu ficava pedindo pra ele pegar as coisas para mim com cuidado: martelo, chave de fenda, chave Phillips etc. Foi custoso, mas pelo menos, consegui ensinar pra ele o nome de cada ferramenta.
A princípio ele achou divertido, só que não demorou muito para ficar entediado com o serviço.
Quando estávamos quase acabando de arrumar a última porta, mandei ele se arrumar para a gente ir. Ele saiu correndo todo feliz, quase tropeçou pela casa inteira kkkk.
Depois que ele saiu, uma lágrima despencou do meu olho… Lembrei do quanto que eu ficava entediado e não gostava de te ajudar também. Acho que o Dudu herdou a minha impaciência e a minha teimosia. Tô vendo que tô ficando um pouco parecido contigo.
Até os cabelos estão caindo.
Quem diria que o seu primogênito demoraria tanto para aprender suas lições, né? Eu te dei trabalho, pai.
Demorei para conseguir me tornar o que sempre desejei e te provar que conseguiria ser.
Tu nunca pareceu se importar com a demora.
“Algum dia” arrumaria o armário, “algum dia” aprenderia a usar aquela ferramenta, “algum dia”… O senhor não se preocupava com a espera.
No meu impulso de imediatismo, atrasei tanta coisa.
Tô sentindo a tua falta.
Aprendi tanto com o senhor… só que, tarde demais. Eu queria que ainda estivesse aqui. Queria voltar no passado, quando o senhor ainda estava vivo pra gente aproveitar melhor o nosso tempo juntos e fazer tanta coisa pela primeira vez…
Queria ter dito, eu te amo.

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