Lidos em maio de 2026 - Recomendações e Resenhas

Comecei o mês com um desafio pessoal: ler um calhamaço e terminá-lo em apenas dez dias. Depois disso, parti para obras bem diferentes entre si, e nem todas conseguiram me agradar a ponto de entrarem na lista deste mês. Então, como sempre, separei os mais interessantes para compartilhar contigo leitor.

Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski



A primeira vez que li Crime e Castigo — sim, de certa forma foram duas vezes — foi em formato de quadrinhos. Achei a proposta interessante e fiquei curioso, já que considero uma ótima maneira de conhecer uma história antes de me comprometer com a leitura completa. Filmes, audiobooks e outras adaptações também podem ajudar nesse sentido. Quando terminei a HQ, achei a história muito interessante e fiquei me perguntando quanto do livro havia sido adaptado.

No fim das contas, consegui completar o desafio de ler o calhamaço de 716 paginas em 10 dias. Foi uma experiência intrigante. A leitura não foi cansativa, mas, como Dostoiévski gostava de escrever blocos enormes de texto, eu acabava demorando mais do que o normal para avançar pelas páginas. Ainda assim, deu tudo certo.

Consigo entender perfeitamente o motivo da trama ser tão cultuada e comentada até hoje. Toda a motivação do protagonista e seus dilemas são fascinantes. Porém, a demora para que algumas explicações apareçam pode ser um fator decisivo para certos leitores. Eu mesmo não sou muito fã de narrativas slow burn. Quando uma história demora demais para entrar nos trilhos, começo a puxar os cabelos. Acho que uma solução para leitores parecidos comigo, é ter algum contato prévio com a obra — seja por meio de resumos, adaptações ou até alguns spoilers. Dessa forma, já sabemos o que esperar e podemos aproveitar a leitura prestando atenção aos detalhes que conduzem a história até seu destino. Não sei se esse foi exatamente o meu caso. Afinal, não tenho como afirmar se meu interesse foi mantido porque eu já conhecia a trama ou pelo desenvolvimento real da hisória. Acredito que teria gostado da obra mesmo sem esse contato prévio. O desenvolvimento é realmente intrigante e bastante atípico. Por isso, não posso afirmar o quanto minha percepção foi préviamente influenciada. Inclusive, esse é um tema que renderia uma postagem própria.

Conclusão

Quanto à narrativa em si, é muito interessante acompanhar um personagem que frequentemente parece estar fora de si, com motivações profundas que demoram a ser reveladas. A fatidica tragédia que ancora a trama é brutal, memorável e consegue fazer o nosso julgamento ser dividido. O que nos leva as consequencias que, de fato, nos prende. O estudo dos personagens é o grande charme desta obra, é o que dá sentido para a sua existencia, ao ironicamente, questionar a nossa existencia e as nossas ações através dos personagens.

Dostoiévski trabalha o psicológico e a personalidade de figuras tão humanas e moralmente ambíguas que eu não me surpreenderia se suas histórias fossem usadas como material de estudo em faculdades de Psicologia.

P.S.: aparentemente são mesmo.

Crime e Castigo vale muito a pena para quem gosta de temas complexos, da psique humana e tem paciência para acompanhar histórias cruas e realistas a ponto de quase não parecerem ficção.



Nem Tudo São Flores – Fabio Keller



Conheço o Fabio desde que li A Caçada a Lucius, que é basicamente um Van Helsing do sertão. Massa bagarai. 


O autor é muito gente boa e sempre tive bastante apreço pelas nossas conversas. Em certo momento, descobri que compartilhamos o gosto pela poesia. Então, quem diria? Fabiozera também é poeta.

Conclusão

Nem Tudo São Flores é seu primeiro livro de poesia. Nele, o autor coloca para fora aquilo que pesa no peito, mas também o que lhe arranca lágrimas — sejam elas doces ou amargas. A proposta do livro era descarregar aquilo que sangrava a sua alma e também aquilo que a curava.

Li muitas verdades nesse livro e encontrei reflexões muito bonitas, daquelas que apenas as lentes da maturidade conseguem enxergar.

Então, fica aqui minha recomendação e aprovação desta obra, que me deu tanto em que pensar que passei quase um mês sem saber por onde começar esta resenha.


El Gato con Botas – Charles Perrault




Não faz muito tempo que decidi voltar a me aventurar pelo espanhol. No meu caso, a língua anda um pouco enferrujada. Confesso que a fala é meu maior desafio, mas vamos um passo de cada vez. E, por enquanto, esse passo está sendo dado através da leitura.

El Gato con Botas é um conto infantil muito curto e perfeito para praticar o espanhol nas horas vagas. A história é divertida e eu a recomendaria facilmente para qualquer leitor.

No meu caso, li a versão digital em espanhol, que pode ser encontrada com facilidade na Amazon. Então, para quem busca treinar o idioma, fica a recomendação.



As Cartas – Rafael Aráujo



A primeira vez que o Rafa me falou sobre essa história e mostrou a capa antiga, achei que seria algo fofo e triste. É claro que eu não tinha entendido a proposta naquela época.

Para esta obra, ele se inspirou em cartas que nunca foram enviadas para uma determinada pessoa. A narração seria conduzida por um admirador secreto de coração partido. Entretanto, existe um detalhe que faz toda a diferença: esse admirador secreto é completamente perturbado.

Quando comecei a leitura, fui surpreendido pela alternância entre a primeira e a terceira pessoa. É uma escolha ousada, que eu provavelmente contestaria, mas… aqui, ela funciona. Também me fez pensar em como a história seria caso tivesse sido escrita apenas em uma dessas perspectivas.

Claro que a única versão que podemos analisar é a que efetivamente existe. Ainda assim, entendo a decisão do autor. Se ele tivesse escolhido apenas uma abordagem, provavelmente ganharíamos algumas coisas e perderíamos outras. Portanto, a escolha faz sentido.

Durante a leitura, cheguei a cogitar que a história estivesse sendo contada de trás para frente. Conforme avançava pelos capítulos, imaginei três possibilidades: uma narrativa linear do presente para o futuro, uma narrativa linear do futuro para o passado ou uma narrativa não linear acontecendo no presente enquanto revela o passado.

Como diria um amigo detetive: normalmente a teoria mais simples é a correta.

E foi exatamente o que aconteceu.

Uma crítica que preciso fazer — e que eu mesmo já ouvi diversas vezes — é que consigo enxergar potencial para uma narrativa muito maior. Vejo facilmente essa história com algo próximo de 400 páginas, explorando melhor os personagens e os acontecimentos. Quem sabe, podemos esperar algo do tipo no futuro, afinal, a casa já está construída, a reforma pode acontecer.

Conclusão

A trama acompanha um rapaz apaixonado por alguém que observa de longe enquanto escreve cartas com o próprio sangue. Essa obsessão acaba complicando a vida de todos os envolvidos e… não vou dar spoilers.

A motivação da história é interessante. Em muitos momentos, senti que estava dentro da cabeça do personagem, ao mesmo tempo em que queria desesperadamente levá-lo para uma sessão de terapia.

Posso dizer que o livro me lembrou O Relato do Subsolo e produções como a série You.

Certamente eu recomendaria o livro para fãs do gênero. A proposta funciona bem e entrega uma experiência curiosa ao colocar o leitor dentro da mente de um personagem profundamente obsessivo.



Hamlet Adaptado (Shakespeare, o bardo de Avon)



Em relação à história, minha opinião continua sendo a mesma. Porém, senti que, no texto original, compreender os subtextos era muito mais necessário e isso acabava acrescentando profundidade aos personagens. Na adaptação, essas construções permanecem presentes, mas não precisamos cavar tão fundo no texto para entender o que está acontecendo.

Após ler a obra em formato de peça, decidi preencher algumas lacunas e visualizar melhor as cenas através da versão adaptada. Nela, o livro consegue narrar acontecimentos, explicar ações dos personagens e contextualizar o leitor com muito mais facilidade.

Conclusão

A adaptação de Hamlet adiciona uma narração e transforma a peça em um romance tradicional. É uma opção perfeita para quem não deseja se desafiar logo de início com o formato teatral. A história se torna mais fácil de ler e compreender.

O leitor perde parte do glamour das falas rebuscadas e dos diálogos teatrais, mas ganha clareza, explicações e uma narrativa mais fluida. Recomendo facilmente esta versão como porta de entrada para a obra.


Fim do mês

Maio foi interessante. Estou terminando ele com algumas leituras em andamento, das quais, provavelmente tornarão junho um dos meses mais diferentes nas minhas leituras. Até livro “recebido” vai ter. Olha que legal, estou virando blogueirinho mesmo.



A propósito, não estou incluindo as minhas leituras do Byung-Chul Han, pois encheria o saco ver ele aparecendo todo mês haha. Também não inclui quadrinhos, não sei a opinião geral sobre isso, então acho que vou falar assim que tiver algo muito interessante para ser mencionado. 

Esse foi o meu lidos de maio. Conta ai como foi o seu?

See You Web Cowboy! 

Comentários