Você vai falar como uma I.A. — e não há nada que possa fazer para impedir isso

 

“No futuro, todos nós vamos falar como uma inteligência artificial…”

Essa frase é forte, eu sei. E, por mais alarmante que pareça, acredito muito que isso possa ser a nossa realidade em um futuro relativamente próximo.

“Mas, como isso pode ser possível?” Você provavelmente está perguntando isso nesse momento. Mas relaxa, vou explicar.

Só que, antes da minha teoria, quero contar uma breve história:


As previsões humanas

É um habito comum do ser humano tentar adivinhar o futuro. Desde o simples palpite diário sobre a chuva ‘Acho que vai chover hoje’, previsão de resultados no futebol ‘O Brasil ganha essa’ e até mesmo a volatilidade do mercado financeiro ‘O bitcoin vai mudar’.

Todos os dias os seres humanos palpitam. E isso não é de hoje. Há milhares de anos a nossa espécie faz previsões, algumas muito úteis sobre as condições climáticas em alguns meses — ótimo para se trabalhar plantações e se precaver — e outras alarmantes sobre o fim do mundo — que nunca ajudam em nada. O mais impressionante disso, é que temos a capacidade de acertar. Tudo graças a três coisas: observação, dados e lógica.


Como funciona?

Uma boa observação ajuda a entendermos tendências. Para isso, temos que analisar dados, tanto do passado quanto do presente, e usar um pouco de lógica para traçarmos as possibilidades para o futuro.

Coletar dados históricos → Identificar padrões → Conferir dados atuais → Calcular projeção e probabilidades

Falando assim até parece redundante né. Se bem que, é mesmo.

Sabe quando alguém fala ‘Ah, mas é obvio que isso ia acontecer, estava na nossa cara o tempo todo’?

É muito fácil ver que algo acontecendo e entender por que aconteceu após ter acontecido — ok, fui redundante novamente. O ponto é que, enxergar tendências pode ser bem fácil quando entendemos como a nossa sociedade gosta de repetir padrões.

Antes de falar da minha teoria, vou explicar como cheguei nela, o que me faz estar confiante em minha afirmação e de onde eu estou tirando a minha observação. Vamos lá.


Sobre a minha certeza

Não é de hoje que eu cravo algumas afirmações sobre o futuro que acabam se concretizando. A maioria das vezes fiz isso em conversas com amigos ou em vídeos para o Youtube, sobre coisas da cultura pop.

Então, decidi começar a escrever elas, pelo menos, como um exercício. “Mas quais afirmações foram essas?”

Alguns exemplos:

Quando afirmei que John Wick seria um clássico moderno e que revolucionaria o gênero dos filmes de ação. Recebi muitas risadas na época (não tinha nem o segundo filme) mas, hoje em dia, virou franquia e inspirou diversos produtos do entretenimento.

Quando eu afirmei que algum dia surgiria um serviço parecido com a Netflix de jogos. Disse isso pela primeira vez em uma conversa dentro do ônibus a caminho do curso do Senai, se não me engano em 2013. Quatro anos depois, surgiu o Xbox Game Pass.

Diversas vezes (inclusive em vídeo) afirmei ideias de personagens que surgiriam em jogos, como Valorant e Rainbow Six Siege, dos quais eu participava ativamente. O mesmo vale para ideias de jogos que vieram a surgir também.

Sobre o mundo e as mudanças…

Confesso que lembro de poucas vezes que afirmei coisas tão significativas. Porém, sempre acompanhei mudanças em plataformas de redes sociais, como o Youtube, Instagram e outras. E, por estar tão ativo nessas plataformas atualmente, observei algo que — como diria a nossa querida i.a — vai mudar tudo!

Eu já consigo observar o quanto a inteligência artificial está presente e impactando no comportamento humano.

Os conteúdos que mais afetam a nossa comunicação são os vídeos. Não importa se pareçam inocentes ou informativos. A estrutura padronizada deles é o que mais me chamou a atenção.

Poucas pessoas percebem isso… — espera, já estou aqui imitando a i.a novamente. Deixa eu me controlar, pois preciso explicar algo antes.


Sobre a Comunicação humana

A nossa língua é volátil. Adaptamos a nossa forma de falar conforme a sociedade adota trejeitos, gírias, cacoetes e abreviações. O famoso “ocê”, vem de “você”, que por sua vez, é uma evolução de “vosmecê que vem de “Vossa Mercê,” que vem de “Vossa Majestade” que vem... — ok, chega.

Tanto a nossa comunicação quanto o nosso vocabulário, mudam com o tempo. É muito comum, hoje em dia, a internet aproximar pessoas que estão distantes. Isso faz com que a gente adote e se acostume com termos e gírias estrangeiras.

Antigamente, ao assistirmos televisão, adotávamos frases de filmes e novelas em nossas conversas. Muitas vezes, como uma forma de brincadeira, mas que acabava formando um elo entre aqueles que entendiam.

Com a internet, isso não é diferente.

Quantas vezes usamos memes em uma conversa com amigos? Muitas vezes, uma frase aparentemente sem contexto, pode significar muitas coisas. Tudo depende de quem conhece o padrão e o significado.


Como as i.as impactam?

Quando a inteligência artificial surgiu, ela abalou muito a nossa compreensão de tecnologia.

Acompanhei a sua evolução desde o começo, quando gerava pequenas respostas em textos e imagens distorcidas. Hoje, ela consegue gerar vídeos, programas e até jogos, com uma qualidade que assusta mais a cada dia que passa.

Além do medo de não sabermos mais o que é ou não real, a i.a também apresenta uma ameaça a segurança mundial. Com o seu poder e velocidade de entender padrões em tudo, pode encontrar brechas em sistemas e códigos em segundos.

Claro, a i.a não é um ser do mal, ela é uma ferramenta. Entretanto, assim como uma chave de boca nas mãos de um mecânico pode servir para consertar algo e fazer o bem. A mesma chave na mão de um meliante pode acabar com uma vida. Então, sim, a ferramenta pode assustar, não por existir mas por quem ela pode ser usada — p.s.: usar exemplos de “não isso” e “sim aquilo”, me preocupa.

A inteligência artificial mais comum e de maior uso, hoje em dia, é a LLM (Large Language Model = Grande Modelo de Linguagem). A principal responsável pelos textos realistas que vemos por ai. São treinadas com muuuuuuitos dados de textos. Aprendem os padrões de linguagem e se baseiam neles para formular respostas.

Claro, elas não são perfeitas, mas estão evoluindo em uma velocidade alarmante. Hoje em dia, é difícil conhecer alguém que usa internet e não se depara com ela. Presente até mesmo em uma simplória pesquisa no Google e até nas conversas do Whatsapp.

E é por causa dela que uma mudança assustadora está acontecendo. Muitas pessoas estão usando e consumindo essa ferramenta como se estivessem respirando.

Isso levanta um questionamento:  “Se uma máquina aprende a falar observando seres humanos, o que acontece quando seres humanos passam a aprender a falar observando a máquina?”

Para quem entende um pouco dos padrões que a i.a gera em seus textos e na sua forma de “escrever”, é fácil perceber algumas pistas que POSSIVELMENTE entregam que foram geradas por uma inteligência artificial.

Como as i.as aprenderam linguagem se baseando em escrita humana de alto nível. Isso deixa qualquer escritor com medo de ser confundido só porque nos dedicamos a escrever direito. Inclusive, mesmo satirizando as i.as neste artigo, ainda fico com um pé atrás por causa das possíveis acusações. Enfim, “ossos do ofício”.

Não quero me aprofundar na discussão do uso da i.a, das causas no meio ambiente ou o quanto ela afeta diversos artistas e profissionais. Pois, esse não é o foco deste texto.

O importante aqui é o quanto que ela afeta aquilo que ouvimos e falamos.


A grande mudança já se tornou cotidiana

Se você já passou algumas horas no Youtube atualmente, já deve ter percebido muitos vídeos feitos por inteligência artificial.

Se não percebeu, não importa. Pois, mesmo que não se dê conta, ela está lá.

Milhares, se não, milhões de vídeos são produzidos semanalmente com roteiros e até vozes feitas por i.as. E antes que você diga “Eu assisto, mas aprendo muito com alguns vídeos”. Quero deixar claro que também não vou discutir sobre o aprendizado que pode ser obtido com o uso da ferramenta. Afinal, eu seria um hipócrita se dissesse que não tem como usar ela para este fim, seja ativamente ou com o conteúdo que alguém produziu.

Se tenho uma critica a fazer — além de falar sobre as pessoas que trocam a sua humanidade para colocar uma i.a para pensar por elas — é que esses vídeos são a principal razão para que eu acredite que a nossa linguagem vai mudar. A maioria das pessoas nem vai perceber.

O consumo de conteúdos que contém um texto padronizado, sem personalidade, sem humanidade, é um dos principais fatores disso. As pessoas escutarão e até lerão tantas frases típicas de i.a que, algum dia, vão falar do mesmo jeito.

Hoje, ainda conseguimos pegar alguns “escritores de i.a” no pulo. Pois a estrutura e os padrões que a máquina usa em seus textos acabam entregando a sua utilização. Porém, acredito que algum dia não seremos mais capazes de analisar e separar escritores reais dos fajutos artificiais. Porque, a sociedade tem a capacidade de adotar a mesma forma de fala que a i.a usa em seus textos. E, sem perceber, vamos aos poucos falar como uma máquina.

Isso se deve ao ouvir e interpretar. Desde crianças aprendemos observando conversas e comportamentos. Aprendemos espelhando o que vemos, até que, algum dia, saímos falando e agindo por ai.

A nossa evolução tem o poder de nos fazer regredir.


Conclusão

A ideia deste artigo é mostrar como vejo que essa mudança pode acontecer, e sinceramente — mais uma frase que a i.a roubou de mim —, não sei o que pensar sobre isso. Claro, posso estar errado na minha previsão. Acredito que não, mas torço muito para que esteja.

Se eu for tentar ter algum pensamento positivo sobre isso: talvez, com a inserção de textos rebuscados e estruturas de pensamentos lógicos que a i.a injeta por ai. Quem sabe, as pessoas aprenderão a formular melhores pensamentos e isso acabe sendo algo positivo?

Se for pensar de forma de negativa: o ser humano tem uma natureza de ser preguiçoso, pensar, escrever e produzir, exigem tempo e esforço. Esse texto, por exemplo, da sua concepção até o primeiro rascunho foram necessários muitos dias para começar a ser escrito. A minha escrita (primeiro rascunho) levou mais de duas horas de trabalho. Não posso dizer quanto tempo levarei para revisar (muuuuitas), mas posso deduzir que muitas das pessoas que lerão esse texto sequer vão ler todas as palavras contidas nele. Por isso, acreditando na nossa preguiça, talvez dizer que a sociedade tende a piorar em sua comunicação já possa ser a realidade e não uma previsão.


P.S.: eu sei que “ossos do ofício” é o termo errado, entretanto, o uso errado é mais popular e mais divertido.





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